Aviso à navegação: há pais (sempre que escrever pais, subentende-se mães e pais) que não vão gostar de ler, mas há que abanar algumas convicções, sair da caixa, ver de fora. Retrato apenas a minha opinião, baseada na experiência pessoal de filha com diabetes, de moderadora de dezenas de sessões presenciais em grupo, de participante e monitora em campos de férias, de organizadora de eventos com pais e filhos, amiga de pais de crianças com DT1 e, sobretudo, presença assídua há muitos anos nas redes sociais onde estes pais se encontram e manifestam, especificamente no grupo “Pais de crianças com diabetes tipo 1 Portugal“, onde aprendi e cresci tanto.
Falando da diabetes em específico, que é o que me traz aqui, gostaria de alertar que tudo o que os nossos pais sentem relativamente à doença, passa para nós. Tenhamos a idade que tivermos… As crianças são esponjas de emoções, os adolescentes são atentos, os jovens adultos percebem logo.
E os pais dizem “mas o meu filho não sabe que me sinto assim, ainda é muito pequenino”, ou “o meu filho não lê porque não está no grupo”, ou mesmo em diálogo com familiares e amigos “ele não ouve”. Tudo verdade, mas sente. Acreditem, sentimos se causamos peso e sofrimento.
É ingrato este papel de pai. Em breve estarei a vestir a pele. Mas enquanto ainda só filha, tenho que escrever o que sinto. Se a diabetes for aceite pela família (a da nossa casa), o filho mais facilmente a aceitará. Não adianta disfarçar, não adianta ter duas caras, não adianta dizer que se aceita e continuar com esperança de se acordar de um pesadelo. Adianta sim ACEITAR. Eu sei que custa, até a mim me custa quando conheço casos de novos diagnósticos, também choro e nem sequer são meus filhos, mas passa-se o período de luto e avança-se. Arregaçar as mangas e “mãos ao trabalho”.
Pesquisar sobre novos métodos, ser ambicioso e querer o melhor, ser audaz e acreditar na cura, tudo muito bem. Faz parte. Mas enquanto as glicemias não estão estáveis, e enquanto a diabetes não estiver profundamente integrada na rotina, não há que inventar muito. Em Portugal temos excelentes profissionais e equipas de saúde especialistas na área, e portanto podemos confiar nas suas propostas. Não é seguir cegamente o que nos dizem, mas sim seguir o que nos sugerem enquanto não encontramos o nosso caminho. Sem inventar. Sem questionar no facebook. Sem seguir sugestões de pessoas que nem sabemos quem são.
E se a tecnologia dificulta, não a podemos introduzir antes da terapêutica estar bem instituída. Construir a casa de base. Sim, existem os sensores contínuos de glicemia, o Libre, etc etc etc, mas antes disso, existia e existe a máquina de glicemia, que nunca falha!!!! Sem “miaomiaos” e afins. Simplicidade. A diabetes já é uma doença complexa por si só. Temos tempo de introduzir coisas novas. O início da terapia com bomba dá muito trabalho, mas acreditem que é a melhor solução para a nossa vida. Não ponham em causa, é meio caminho andado para correr bem. Claro que não é perfeito, mas isso é utopia.
Tudo leva tempo, e também leva tempo a encontrar a terapêutica adequada, ou a saber em quem confiarmos, incluindo aqui os profissionais de saúde. Devemos viver o tratamento da forma mais natural possível. Há altos e baixos?! Há e hão-de haver sempre. Mas lembrem-se, o stress que isso vos causa, aos pais, a nós é em dobro. Porque se os pais não percebem as glicemias, nós não percebemos as glicemias nem a angústia que causamos em quem mais amamos.
P. S. E somos muito mais que as glicemias, o nosso dia é recheado de vivências e emoções. Quando chegamos a casa, deve ser isso a prioridade, como estamos, como nos sentimos, como foi o dia, se estamos felizes. Depois então, e dependendo da idade e da fase da vida, verificam-se as glicemias 🙂
